Lá estava eu, sentado no chão de uma das portas do último vagão do trem, atrasado para variar, ao som de qualquer coisa que costuma tocar no meu mp3 e bebâdo de sono, como de praxe.
O coletivo lotado me impedia de observar o que acontecia a cinco metros de mim.
Entre uma cochilada e outra, ao cruzar as estações, procurava ver se não vagava um lugar para eu sentar.
Eis então que no meio daquela longa e rotineira viagem, as pessoas como boaiada, desembarcam e eu encontro a minha distração.
Como quem acaba de entrar em um sonho bom, eu observava aqueles pézinhos, que mais pareciam duas bisnaguinhas – diga-se de passagem – naqueles sapatos de tirinhas, deixando a mostra os perfeitos dedos, e um salto de uns 8 cm.
Meus olhos, que nem ousavam piscar seguiram subindo por aquelas pernas lisas, onde uma correntinha prateada adornava o tornozelo esquerdo.
Eu estava embriagado, drogado, sonhando. Não sabia se aquilo era real ou fruto da minha imaginação. Aquelas pernas me ludibriavam, me tirando do mundo real e me transportando a um novo mundo delirante.
Era visível a minha idiotice por aquelas pernas… quando cheguei nos joelhos, eles pareciam que diziam: “veeem”. Foi quando eu voltei a minha sanidade e tentei domar os meus impulsos.
Me fiz de louco e fechei os olhos, como se eu tivesse voltado a dormir. Mas aquela imagem não saia da minha cabeça. Quando abri os olhos novamente, ela já estava de pé, na porta a frente, esperando chegar sua estação para descer.
Em uma questão de segundo, eu, naquele estilo matinal de pesudo-jornalista-hippie de esquerda com sono, queimava por dentro logo cedo da manhã contemplando aquelas pernas…









